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Serão as vidas dos africanos menos importantes? – A reação racista dos mídias internacionais ao acidente da Etiópia Airlines.

A forma como as mídias internacionais, particularmente as europeias fazem o relato  em torno do acidente do vôo 302 da Etiópia Airlines, no qual 157 passageiros e tripulantes morreram, mostra que as vidas dos africanos continuam a ser tratadas como menos importantes, com o mesmo racismo que durante muito tempo atormentou  o continente berço da humanidade.  

A Associated Press (AP) ao publicar a lista das vitimas do acidente com o voo da Etiópia, propositadamente omitiu o nome das vitimas de nacionalidade africana. Em um post feito no twiter a AP disse: “Alerta: Autoridades dizem que canadenses, chineses, americanos, italianos, indianos, franceses, britânicos,  entre os mortos do voo  etíope.”

Ficou imediatamente óbvio para muitos que essa não era uma lista aleatória de países que haviam perdido cidadãos. Em vez disso, refletia os valores noticiosos mais antigos e racistas que sustentavam que algumas mortes e, portanto, vidas, eram mais importantes que outras. A reportagem da AP ignorou a morte de 32 quenianos, o maior número de mortes entre todas as vitimas de  qualquer país outro pais, ou os nove etíopes que morreram.

Aparentemente, as mortes dos africanos só são dignas de notícia se morrerem em grandes números por causa de uma terrível fome ou de uma guerra civil selvagem, na sua maioria promovidas pelo próprio mundo ocidente.

Outros órgãos noticiosos e repórteres e Europeus  também, julgaram o acidente com o mesmo estereótipo de sempre em relação a Africa, descrevendo o continente como feito de gente  incompetente e imprudênte.

Uma rede de televisão turca, TRT World, fez questão de enfatizar que a Etiópia Airlines tinha um “histórico de segurança insatisfatório” e uma “história de sequestros”, apesar de continuar sendo uma das companhias aéreas mais seguras do mundo.

A “história dos sequestros” a que ela se referiu foi um trágico incidente em 1996, no qual 125 dos 175 passageiros e tripulantes foram mortos. No entanto, como analista de aviação Alex Macheras – convidado do TRT – disse: “Afirmar que Etiópia Airlines é uma companhia aérea com um ‘recorde de segurança pobre’ por causa das tentativas de sequestro nos últimos 20 anos é irresponsável. Por essa lógica, a American Airlines, a United & Air France também são companhias aéreas com … “registros de segurança pobres”.

Entre tanto, mesmo quando defendiam a Etiópia Airlines, alguns não conseguiam esconder suas percepções subjacentes do que significa “africano”.

Por exemplo o  âncora da CNN Richard Quest disse: “A Ethiopian Airlines é uma companhia aérea muito, muito bem administrada”, disse ele. “Não há nenhum problema de segurança na etíopia. Eles fizeram o negócio deles ser a companhia aérea africana que opera como uma companhia aérea ocidental. ”O que tem de errado, exatamente em ser uma companhia aérea“ africana ”?

Houve um tempo em que as companhias aéreas africanas tinham um histórico de segurança insatisfatório. Em 2011, de acordo com Tony Tyler, ex-CEO da Associação Internacional de Transporte Aéreo, “apesar das melhorias, o recorde de segurança para a África foi 9 vezes pior”.

No entanto, as coisas mudaram drasticamente desde então. Como Michael Wakabi relata em The East African, de contabilizar “mais de dois terços das mortes há pouco mais de duas décadas, a África entrou em novo território quando relatou zero mortes atribuíveis a um acidente com um avião comercial em 2016”. E novamente em 2017 E em 2018.

A lição que a mídia, tanto dentro como fora do continente, falha repetidamente em aprender é que realmente não existe uma história “africana”. Tentar comprimir as experiências de 1 bilhão de pessoas que vivem em 54 países em um continente com dezenas de milhares de culturas distintas sempre dirá mais sobre os preconceitos e a preguiça do jornalista do que sobre seus súditos.

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